segunda-feira, 8 de agosto de 2011

The greatest show on earth

Apos uma primeira noite num lodge simpatico (Mbalageti Lodge), com uma vista unica sobre as planicies infindaveis do Corredor Oeste do Serengeti, arrancamos cedo para mais um dia pelos trilhos do parque. O objectivo na minha cabeca, sempre, era ver as grandes manadas de gnus.
- Jonathan, onde vamos hoje?
- Vamos para Seronera, no centro do parque.
- Achas que vamos ver a grande migracao la'?
- Sim, la devemos ver.
Desconfiei um bocado, ja que por esta altura deviam andar mais pela zona oeste, e norte, mas ele e' que e' o guia...
Pouco tempo depois de sairmos, vemos um grupo grande, mas estavam longe, e como nao podemos sair dos trilhos, nao podemos proximar-nos. Por sorte, paramos mais 'a frente para ver outro pequeno grupo, e entretanto o grande grupo apanha-nos. Umas centenas de gnus e zebras. Quase a chegarem ao carro, uns quantos deles comecam a correr noutra direccao, e os outros vao todos atras. Em 5 minutos, centenas de animais desaparecem atras das arvores. Como nao podemos sair dos trilhos, perdemos os animais. Seguimos caminho. Vimos uma chita, a descansar 'a sombra. Mas eramos nos e mais 15 carros! Quanto mais nos aproximavamos do destino, mais animais apareciam, mas tambem mais carros. Vimos 2 leopardos numa arvore, nos e mais 10 carros. Fim do dia, dirigimo-nos para o acampamento. E' um parque de campismo aberto, sem vedacoes, no meio da planicie. Tem dois telheiros: um deles esta' cheio de cozinheiros, uns 20, ja que todos os grupos tem um cozinheiro. Estao todos numa grande azafama a preparar o jantar para os safarianos que estao a chegar do seu dia a comer po no parque. O outro telheiro e' onde sao colocadas as pequenas mesas de campismo para os clientes jantarem. Ao lado, as casas de banho, muito limpas, ha que confessar. Ajudo o meu guia a montar a minha tenda, no final do parque.
- Se quiseres ir 'a casa de banho durante a noite, leva lanterna, por causa das hienas.
- Oi? Das hienas?!?!
- Sim, durante a noite podem andar pelo meio das tendas, e convem levar lanterna para nao ser atacado.
Lembrei-me logo de ter lido no livro "Long Way Down", que um turista dormiu com a cabeca de fora da tenda, e as hienas lhe comeram a cabeca. Como nao estou a ver Com ou sem lanterna, ninguem me ia tirar da tenda durante a noite!
O meu cozinheiro (nao e' para todos, um cozinheiro privado!), fez um jantar rapido e simples, e depois da sobremesa atirei-me para dentro da tenda.
Eram umas 3 da manha, acordei. Barulho. A tenda nao era grande, a minha cabeca ficava quase a bater no topo da tenda. Ouvia barulho muito perto da minha cabeca. Passos? Vento?
As hienas sao ferozes, tem a mandibula mais poderosa de todos os predadores africanos, capaz de esmigalhar ossos sem esforco.
Abro a tenda para ver e me comerem a cabeca?
E com estes pensamentos tentei adormecer. Ou o cansaco era muito ou o medo nao era tanto, porque meia hora depois ja estava a ressonar.
Acordei antes do sol, e' a melhor altura para ver animais. Ganhei coragem e pus a cabeca de fora da tenda Ainda escuro, so' vi campistas, nada de hineas. Dei a volta 'a tenda 'a procura de pegadas. Nao encontrei nada de conclusivo, mas o que percebo eu de pegadas de hienas?! Se as hienas eram de verdade, nao sei. O medo era!
Arrancamos e 5 minutos na estrada passamos por um grupo de hienas, umas 10 incluindo 4 crias. La esta', como nao conseguiram comer nenhum turista durante a noite, estavam a atentar apanhar um leopardo que estava numa das arvores. Mais uma volta, vimos um rinoceronte e alguns elefantes, e regressamos ao acampamento, onde o meu (!!!) cozinheiro ja tinha um grande pequeno-almoco preparado.
Durante o dia, mais uma volta. Muitos carros, mas muitos animais tambem. Elefantes, girafas, zebras, impalas, hipopotamos. Fomos cada vez mais para sul. Planicies enormes, amarelas incandescentes, vazias.
- Jonathan, isto e' muito bonito, mas esta' vazio.
- Pois e'. E' a epoca seca.
- Pois, se calhar e' por isso que nao ha gnus aqui.
- Pois. Devem estar no norte.
- Mas nao disseste que iamos ver os gnus aqui?!?!
- Nao nao, e' a epoca seca, eles nao estao aqui, isto esta' seco!
Tenho a certeza que quem ja trabalhou em Africa acredita que esta conversa e' real. Por muito habituado que eu estivesse, fiquei fod.... Gastei uma pequena fortuna para ver a grande migracao, e este cab... andou a passear-me pelo lado contrario do parque! Tres dias a enganar o burro do turista!!!
- Olha la', o' meu ca.., desculpa, Jonathan, se formos ate ao norte do parque, achas que vemos a migracao? (a frase nao foi esta, mas a furia era equivalente)
- Provavelmente.
- E conseguimos ir e vir num dia?
- Sim sim, se sairmos cedo. Sao 150 kms ate la.
Pois bem, depois de muito pensar e insultar mentalmente, decidi que, perdido por cem, perdido por mil. Telefonei ao chefe dele, negociei mais um dia, e:
- OK Jonathan, Pago mais um dia. E se virmos o que eu quero, dou-te 50 dolares.
Os olhos do homem ate' brilharam! Dia seguinte, 'as 6 da manha, arrancamos para norte, a todo o gas!
Passamos por um grupo de leoes, mas nem abrandamos. Os animais iam desfilando 'a nossa volta, mas iamos sempre a apontar a norte. O parque comecou a ficar verde, mais gnus e zebras espalhados na paisagem. Os carros quase desapareceram, 2 ou 3 o caminho todo, em sentido contrario. Paramos so uma vez para ver dois girafoes a lutar, a mandar grandes pescocadas um no outro. Muito bizarro, como tudo o que envolve as girafas.
Ao fim de 3 horas de terra batida, chegamos ao final do parque. Montanhas verdes, vegetacao alta. Dai para a frente era o Quenia. No meio da montanha, o posto fronteirico, so' com dois tipos mal arranjados a fazer de guardas. O Jonathan foi perguntar se tinham visto os animais. Por 50$, um deles levava-nos a uma grande manada que ele tinha visto no dia anterior. 30$. OK, vou so trocar de roupa.
Vai ate' ao barracao, e regressa bem aprumadinho, com o seu fato verde de ranger, e espingarda ao ombro. Mete-se no carro e arrancamos, agora com a autoridade no carro. Primeiro trilho 'a direita, pelo meio da montanha. Tudo verde, muito verde 'a volta. Atravessamos uma colina, depois outra. O trilho mal se ve, andamos no meio da erva. Atravessamos mais um vale, mais outra colina, e entao comecam a aparecer...
Do alto da colina vemos um vale extenso, com centenas, milhares de animais. Todos espalhados, tranquilos, como se tivessem chegado ao paraiso dos gnus. A extensao da paisagem e' enorme, nao ha carros 'a vista. Nao paramos, andamos andamos andamos, sempre com animais 'a nossa volta. Sentia-me como se estivesse no Jurassic park, a ver os dinossauros pela primeira vez. Meu amigo, mereces os teus 50$, pensei eu.
Mas eles nao paravam, sempre a avancar. Havia mais. Ao fim de uma hora, ao passar uma colina, a paisagem muda instantaneamente para amarelo seco. E ao fundo, uma manada gigantesca!!! Primeiro uma fila enorme de gnus, a caminhar uns atras dos outros, cabeca baixa, como se fossem condenados a atravessar o deserto, sempre a andar, devagar, sem parar. Talvez 2 kms de fila indiana. Do outro lado da outra colina, a fila acaba num grupo grande de animais. Como se fosse agua, o fio de animais em movimento vai aumentando a poca no final. Na poca, os animais estao todos parados, sem saber para onde ir, virados para todos os lados. Ao longe, mais abaixo, outro grupo, ainda maior. Mas nesse grupo, de repente, alguns comecam a correr desenfreadamente. Na planicie, vejo-os a formar um triangulo, como se fosse a cavalaria a atacar. Depois, estica estica, ate que o triangulo se transforma numa linha na planicie, que vem em direccao ao primeiro grupo, onde nos estamos agora parados. E passado uns minutos os dois grandes grupos estao unidos por uma linha de animais a atravessar a planicie.
Nao sao os animais mais inteligentes do mundo. Uns vao para norte, outros para oeste, outros para sul. Parecem todos perdidos. Quando algum se atira por um caminho, alguns vao atras, e forma-se entao uma grande fila, nao interessa para onde vai. Do mesmo grupo, podem estar a sair animais em 3 ou 4 direccoes diferentes ao mesmo tempo. O que eles tem e' q andar.
Neste momento ja nao seguimos trilhos. Vantagens de ter a autoridade no carro connosco. Descemos ate ao grande grupo, e conduzimos no meio da manada. A toda a volta so vejo animais, gnus, todos a olhar para nos, mas sem se chatearem, sempre a mugir, uns para a frente, outros para tras. Saio do carro para aliviar a bexiga, e afasto-me um bocado. Estao todos a olhar para mim, como se fosse a coisa mais estranho que ja tinham visto. Volto para o carro e arrancamos. Passados 50 metros salta um leao do meio da erva alta, que quase que atropelavamos. O pobre estava escondido, a tentar apanhar um gnu. Se eu tivesse saido do carro mais 'a frente, o leao tinha-me atacado era a mim! E' por descuidos destes, e excesso de confianca, que os turistas sao mortos por animais selvagens. E eu besta, ia ser atacado sem sequer estar a ser filmado...
Andamos mais uma hora, sempre com grandes manadas de animais 'a volta, ate' chegarmos ao mitico rio Mara. Estamos na epoca seca e por isso o rio tem pouca agua. Os animais podem atravessar 'a vontade sem risco de serem atacados por crocodilos. Quando regressam para sul, uns meses depois, ja' cm a agua mais alta, e' que sao atacados. Onde paramos so vemos alguns hipopotamos. Saimos do carro e desco ate ao rio. Nao ha' erva alta, a visibilidade 'a nossa volta e' boa, e o ranger tem espingarda. Um dos hipopotamos levanta-se do rio e comeca a andar na minha direccao ameacadoramente. Vejo entao que esta uma cria no rio, e esta deve ser a mae chateada. Afasto-me da margem e a mae hipo acalma-se e deita-se outra vez na agua.
Missao cumprida, regressamos entao, pelos mesmos trilhos ja percorridos. Os gnus na zona seca ja la nao estao, ja saltaram mais uma colina. O vale verde ainda esta cheio de animais. Estes aqui ja encontraram o cantinho deles. Entretanto comeca a chover. Deixamos o nosso ranger na cabana dele, e fazemos-nos 'a estrada, de regresso ao acampamento. Cansados mas totalmente satisfeitos. O Jonathan confessa-me que nunca tinha visto nada assim.
Fotografias deste dia? Nao ha, ou quase. A camara digital ficou sem bateria no dia anterior, e o telemovel com camara estava nas ultimas. E no parque de campismo nao havia onde carregar. O meu ultimo rolo (sim, ainda tenho uma maquina de rolo), ja so tinha 6 fotografias. Um dos espectaculos mais impressionantes e emocionantes que ja vi, so' vai ficar guardado na minha memoria. Acreditem na historia se quiserem.


No caminho da manada

A familia do gatuno


Para nao acharem que estou em casa, a sacar as fotos da net
 
G-N-U: gnu!

Alguns gnus

Uma amostra de manada

Fotografia a preto e branco...

Sempre a dormir, os hipos.

Cu cu!!!

Vi uma chita, vi uma chita!

Camping


Hiena pela madrugada


A minha tendinha ao nascer do sol. Ao fundo, bufalos.



Elefantes na pradaria

Ha sempre alguem atras das minhas batatas






Tendas de luxo. Para quem quiser abrir os cordoes 'a bolsa.

A caminho do norte

Para norte!!!

Sozinhos no norte do Parque

Gnus por todo o lado


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sabor a Tanzania

De Kigali saltei para Mwanza, uma cidade nas margens do lago Victoria, ja na Tanzania.
Ate 'a fronteira a paisagem continua verde, montanhosa, cuidada. Ao aproximarmo-nos da fronteira, comecamos a descer. A fronteira fica no ponto onde acabam as montanhas e comecam as planicies. O verde e' substituido pelo amarelo e castanho, a terra preta passa a vermelha e cinzenta, seca.
O autocarro so’ vai ate’  ‘a fronteira. Atravesso uma ponte a pe, por cima das cataratas de Rusumo, e do outro lado, ja Tanzania, apanho outro autocarro.Vai ate' Kahama. A estrada esta' em obras, por isso temos que ir fora da estrada, num caminho improvisado em terra. Carros, camioes, carrinhas, trafico intenso. Muito, muito po'. As janelas da minha camioneta vao bem abertas para compensar a falta de ar condicionado. Acho que a minha roupa ficou toda da mesma cor, cor de po! Em Kahama, como umas espetadinhas e um café e apanho outro autocarro, este ja dos grandes com AC, directo a Mwanza. Chegamos 'as 8 da noite, salto para uma moto-taxi e em 5 minutos estou no Lake Hotel. Mwanza e' a segunda maior cidade da Tanzania, e o principal porto no lago Victoria. O lago Victoria e' ainda maior que o Tanganika, e' o segundo maior lago do mundo, e e' a fonte do Nilo Branco. O Nilo Azul nasce na Etiopia, e os dois juntam-se em Khartoum, Sudao, para desaguarem como um so' no Cairo. Daqui para a frente, o Nilo vai andar sempre a acompanhar-me na viagem, em branco, em azul, ou em mistura.
A cidade e' cativante pela quantidade de aves aquaticas que tem: garcas de todos os tamanhos e cores, pequenos guada-rios constantemente a mergulhar no lago, e muitos, muitos falcoes pescadores (imagino que este nao deve ser o nome cientifico). Sao centenas de falcoes, a voar pela cidade, e 'a noite, algumas arvores ficam carregadas deles. Com o tamanho das aves, parace que os ramos vao partir com anto peso. Com esta vida, jardins junto ao lago, e casas penduradas em colinas que mergulham no mar, a cidade e' das mais agradaveis e relaxadas por onde passei.
Mwanza tambem serve de porta de entrada num dos mais fabulosos locais de vida selvagem do mundo, o Serengeti. Com 14.763 km2 (Portugal tem 92.090km2), e' tambem um dos maiores. Talvez por causa da dimensao, os safaris sao organizados de forma diferente: a agencia de viagens aluga um carro, com guia e cozinheiro(!!!), e e' possivel ficar a dormir em parques de campismo espalhados pelo parque. Tambem ha muitos Lodges, mas sao muito mais caros do que dormir numa tendinha com os costados no chao rijo da savana. E passamos todo o dia a conduzir, 'a procura de animais, comendo onde nos apetecer. Como estou sozinho, e as agencias nao tem grupos nos proximos dias com quem me possa juntar, vou sozinho no carro com o guia. Tem a vantagem de poder ir para onde quiser, quando quiser.
O Serengeti tem uma quantidade extraordinaria de animais, e em especial de gnus. 1.300.000 gnus, 360.000 gazelas, 190.000 zebras fazem uma das mais espectaculares migracoes do mundo animal: na epoca das chuvas descem para o sul do parque para se alimentarem nas extensas planicies, verdes nessa altura. Quando comeca a epoca seca, vao para norte, onde esta’ a erva fresquinha. As famosas cenas de gnus a atravessarem o rio e a serem atacados por crocodilos acontecem neste parque. Depois de ja ter visto muitos animais na Zambia, eu queria mesmo era ver as grandes manadas de gnus, e as zebras que os acompanham. Agora estamos na epoca seca, em teoria estao a deslocar-se para norte.
Entramos no parque pelo lado oeste. Ao fim de 10 minutos aparecem centenas de zebras e gnus. Nas grandes planicies, vem-se grupos de animais, centenas deles. Uma verdadeira fartura. Aqui ha de tudo, mas em mais! Logo depois, grandes grupos de elefantes. Aqui, as girafas tambem andam em grandes grupos. Ver um grupo de 20 girafas a correr e' uma cena surreal, principalmente porque parecem que estao a correr em camara lenta. Mas com aquelas estacas nas pernas, correm mais rapido que os leoes!
Primeira noite ficamos num lodge neste lado do parque. O sol ja se esta' a por quando percorremos os ultimos quilometros. Planicies enormes, cobertas de erva seca, uma que outra zebra ao longe, ninguem 'a volta, so' a imensidao da planicie, com a cor do por-do-sol. E' especial. Como disse o Danny, o alemao amigo do Livingstone, o Serengeti pode ser uma experiencia mistica...

A verde Rwanda


Rusumo Falls - Fronteira Rwanda Tanzania

Adeus Rwanda

Ola Tanzania

Proxima camioneta

Espetadinhas na braza

Mwanza - o campo da bola sempre presente


Mwanza

O lagoVictoria, as pessoas, os passaros






Falcoes, muitos falcoes


Batatinhas, batatinhas!!!


Fui!

Girafas 'a sombra


Os primeiros gnus.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Tuga na bruma


Na visita ao Rwanda, um dos objectivos era ir visitar os nossos primos gorilas. Na fronteira entre o Rwanda, o Uganda e o Congo situam-se uma serie de vulcoes que formam um habitat unico. Nos vulcoes do lado do Rwanda foi constituido o Parc National des Volcans, com o principal objectivo de proteger os ameacados Gorilas de Montanha. Foi aqui que trabalhou a investigadora Diann Fossey, que inspirou o filme "Gorilas na Bruma", com Sigourney Weaver.
Alem do problema do preco (500$), a entrada para o parque tem o problema de esgotar 3 meses antes. Mas como ouvi dizer que de vez em quando havia desistencias, resolvir arriscar. Fui ao Gabinete de Turismo e deixei o meu nome e contacto. Ja havia uma lista de 10 pessoas em espera. Esperei 1 dia, 2, 3, 4 e nada. Uma desistencia, que foi para outros. Ao quinto dia, 9 da manha, ja farto da cidade, passei no Turismo antes de ir comprar o bilhete de autocarro para a Tanzania.

"Ligaram agora mesmo a cancelar um bilhete. Esta' interessado?"
"Oi?"
"Gorilas! bilhete! Cancelaram agora. Quer?"
"Oi?!"  :)))))))))

E siga para bingo. Em vez de bilhete para a Tanzania, fui a correr comprar bilhete para Musanze, no interior do pais. Correr fazer as malas, pagar hotel, e ao meio dia, autocarro.
A paisagem por este lado sempre igual: colinas verdes, todos os cantos cultivados e tratados, estradas boas ou em reparacao, autocarro a conduzir devagar.
Chegada a Musanze, mas ainda e' preciso fazer 20 Kms ate Kinigi, a entrada do parque. Autocarro pequeno agora. Afinal Kinigi fica a 5 kms da entrada do parque, e da pousada onde decidi ficar. Uma viagenzinha de mota ate la', e esta' o assunto resolvido.
Chegado, olhar 'a volta: estou no meio do campo, longe da estrada. Os campos todos cultivados, como pano de fundo os vulcoes, cada um, um pico bem separado do seguinte, triangulares, como as montanhas nos desenhos das criancas. Depois de me instalar, ainda tive tempo para passear, ver o por do sol, ouvir as pessoas a bater em tachos e panelas,e a gritar pelos campos, para afugentar os passaros, que lhes comem os cereais.
Como sempre, ver animais comeca cedo. 'As 6.30 os varios turistas (nao mais de 80 no total), encontram-se no escritorio do parque, onde sao divididos em grupos de 8, cada um destinado a um grupo diferente de gorilas. Cada grupo e' uma familia, com numeros diferentes de elementos. Ao nosso grupo tocou-nos a familia Hirwa: 1 grande macho, 3 femeas, 2 jovens e 3 bebes. Vamos de carro ate perto da zona onde esta o nosso grupo, e depois a pe. Sempre a subir, os campos terminam num muro de pedras que marca os limites do parque. Logo depois comecam as montanhas. Saltando o muro, passamos por florestas de bambus, que se transformam em arvoredo denso. Muito denso. Um dos guias vai 'a frente a abrir caminho com uma catana. A subida e' muito ingrime. Apos duas horas a subir, so a ver arvores e arbustos, andar de gatas e arranhado por espinhos, aparece uma pequena abertura na cortina verde e vemos que ja estamos alto, muito alto! Os campos la em baixo, pequeninos. E dos gorilas, nada. Mas o parque esta' bem organizado. Tem batedores que passam todo o dia com os gorilas e sabem sempre onde estao. Mais 20 minutos de subida e dao-nos o sinal: o grupo esta' perto. Temos que deixar todos os sacos e comida, e seguir devagar, sem movimentos bruscos e a falar baixo. Avancamos. Comecamos a descer para atravessar um pequeno vale. Os gorilas estao a andar, a subir do outro lado. Vamos ter que pedalar mais um bocado. Descemos a escarpa coberta de arbustos. A vegetacao e' tao densa que nao conseguimos por o pe' no chao, andamos em cima das plantas, que, verdinhas como estao, escorregam impecavelmente bem. 100 metros em meia hora. Do outro lado aparece um grande gorila, mas desaparece logo na vegetacao. Comecamos a subir a outra escarpa. Eu vou no final do grupo. Param todos. "Entao, ja cansados?" Afastam-se para o lado, e ali, a dois metros de mim, um gorila entretido a comer folhas e ramos. Pelo menos do meu tamanho,  talvez maior. Olho para o outro lado, e uma cabeca preta, coberta de pelo negro, aparece do meio dos arbustos, e tranquilamente desaparece. Subimos mais uns metros e, a toda a nossa volta, vemos a vegetacao a mexer, aqui e ali, um gorila aparece e desaparece. Estao habituados 'a presenca de pessoas, agem como se nao estivessemos ali. Durante uma hora (nao podemos ficar mais tempo para nao stressar os animais), ficamos ali, pendurados numa montanha verde, com gorilas 'a nossa volta. Os mais pequenos aproximam-se mais, curiosos, os maiores nao nos ligam, andam para ali a comer as suas folhas, ramos, frutos.O grande macho, conhecido como silverback por causa do pelo ja a ficar cinzento, fica perto de nos. Um bicho enorme, uma cabeca gigantesca, uma mao capaz de partir um tronco de bambu (para quem nao sabe, e' coisa muito rija, acreditem) ou um pescoco de um engenheiro, sem sequer se aperceber. Os nossos guias, 3, constantemente fazem ruidos guturais, chamamentos roucos, para indicar aos nossos anfitreoes que estamos calmos e relaxados. Como bons anfitreoes, eles respondem com os mesmos sons, como quem diz "se voces estao bem, entao nos estamos bem".
A grande escalada faz-nos sentir que estamos longe de tudo e de todos, embora la em baixo, 'a nossa vista, esteja uma aldeia e os campos cultivados.
Ao fim da hora, contrariados, seguimos a ordem do guia para regressar. Todos com sorrisos na cara, de barriga cheia.
Dizem que sao parecidos connosco, os olhos quase humanos. Sinceramente, a mim nao me pareceram assim tao humanos. Mas nao deixam de ser criaturas incriveis, animais elegantes, poderosos, ageis e inteligentes, que conseguem interagir connosco de uma forma muito especial.
Voltei ao hotel ja final da tarde. Um bom jantar e depois uma boa conversa junto 'a lareira.
Dia seguinte, mota e autocarro no regresso a Kigali. Apre, que ja' nao posso com esta cidade!
De madrugada, apanhei o autocarro para a Tanzania.
Prochaine episode: SERENGETI!

 










 
 
 





segunda-feira, 25 de julho de 2011

Genocidio

250 mil. 250 mil cadáveres. 250 mil pessoas, como tu e eu, violadas, torturadas, mutiladas, esventradas, assassinadas.
250 mil e' o numero de pessoas enterradas em valas comuns, nos jardins do Centro Memorial do Genocídio do Rwanda.
Do milhão de pessoas brutalmente assassinadas, durante os 3 meses de chacina no Rwanda, 1/4 estão enterradas aqui, neste centro construido em Kigali, para relembrar, investigar e educar sobre os acontecimentos de 1994.
Genocídio vem das palavras "geno" (raça) e "cidio" (matar). Neste caso, o "geno" eram os Tutsis.
O Rwanda tinha na altura 10 milhões de habitantes, dos quais 90% Hutos, e 10% Tutsis. Eram governados por um presidente ditador, Habyarimana, e os seus mais próximos, todos Hutos. Eles não queriam perder o poder. Face aos problemas que começaram a ter, arranjaram um bode expiatório, os Tutsis, que já eram descriminados há dezenas de anos. Para propaganda, usaram jornais, rádios e televisão. Espalharam a mensagem que os Tutsis queriam controlar o pais, explorar os Hutos e escraviza-los. O exercito era totalmente controlado pelo governo, tal como a policia. Como se não chegasse, formaram milícias, grupos de jovens, treinados militarmente, só com um objetivo: exterminar os terríveis Tutsis!
No dia 4 de Abril, o avião do presidente foi abatido. O presidente morreu.Bem preparados, com o plano estudado ao pormenor, o governo deu ordem para o inicio do extermínio dos Tutsis da face da Terra.
Primeiro foram os Tutsis mais influentes, As milícias foram a casa de cada um deles e exterminaram toda a família. A primeira ministra, Huto, tentou para o massacre. Foi torturada e assassinada. O mesmo aconteceu aos 10 soldados belgas que a tentavam proteger. Pelas cidades, aldeias, campos, o massacre começou. Nenhum Tutsi podei ser poupado. Hutos qu tentavam ajudar Tutsis, tinham o mesmo destino. As milícias percorriam as ruas das cidades, as aldeias, em busca de Tutsis. As únicas armas que tinham eram bastões com pregos, catanas (machetes), pedras. Quando os Tutsis se juntavam para se protegerem, era chamado o exercito. Com balas e granadas davam cabo da resistência. Depois entravam as milícias para fazer o trabalho de carniceiros. Graças 'a  propaganda emitida, muita gente foi convencida que os Tutsis eram perigosos, e por isso juntaram-se também 'as milícias. Mataram-se vizinhos, cunhados e ate' filhos. Segundo a regra, filho de pai Tutsi e mãe Huto e' Tutsi. A loucura era tanta que houve casos de mães a matarem os próprios filhos...
Visitei a igreja de Nyamata. Os Tutsis da zona refugiaram-se la.Durante alguns dias, homens, mulheres, crianças, idosos, bebes resistiram 'as milícias. 10.000 pessoas na igreja! Veio o exercito. Começou a disparar para dentro da igreja. As pessoas começaram a cais, umas sobre as outras, sem poderem fugir. No chão escorria sangue como se fosse agua. As milícias entraram para matar os sobreviventes. As crianças, esmagavam-lhes a cabeça contra a parede da igreja. Num dia, morreram os 10.000. Ou quase. Mas no dia seguinte, as milícias voltaram para matar os que ainda respirassem.
Hoje, estão la amontoados, para que ninguém se esqueça, as roupas de todas as vitimas. Montes e montes de roupa ainda vermelha de sangue. O pano do altar ainda tem as manchas vermelhas. As paredes e o tecto também. Estão expostas algumas ossadas das vitimas. Na igreja só existe um caixão, fechado. Nele esta' o corpo de uma mulher. Quando foi apanhada, estava com o bebe nos braços. Foi violada pelos 20 homens da milícia. Espetaram-lhe pregos por todo o corpo. Enfiaram-lhe uma vara pela vagina, ate sair pelos ombros. Antes que morresse, colocaram-lhe o bebe nos colo, e, com a mesma vara, furaram o bebe e a mãe de uma só vez. Esta no caixão porque os familiares quando vão 'a igreja não aguentam olhar para ela.
Na igreja de Ntarama, eram 2.000. A historia a mesma. Ainda la esta a vara usada para torturar mulheres. 'As crianças, agarravam-nas pelos pés e batiam com elas na parede ate a cabeça rebentar. Ainda la esta a parede e as manchas! Noutra igreja, os Tutsis tantos e as milícias poucas. O exercito chegou. Tiros. Para não fugirem cortaram os tendões de Aquiles 'as vitimas. E durante alguns dias, foram matando os Tutsis que la estavam, espalhados pelo chão, 'a espera da morte.
O terror só acabou quando um exercito de rebeldes Tutsis entrou no pais, e derrubou o governo. Isso levou 3 meses, e custou 1 milhão de vidas.
A segunda parte da historia acho mais impressionante.
Os rebeldes Tutsis formaram de imediato um governo. Com Tutsis e Hutos, O Presidente e o Primeiro-ministro Hutos. Muitos dos assassinos fugiram para o Zaire, mas muitos ficaram e foram apanhados. O governo não matou um único. Entre a reconstrução de um pais em ruínas, montou tribunais civis e tribunais tradicionais. Os criminosos foram chamados 'a justiça. Os que aceitaram colaborar tiveram sentenças reduzidas. Todos os guias dos locais de recordação são sobreviventes. O nosso guia na igreja de Ntarama 'e um dos 2 únicos irmãos que sobreviveram, duma família de 12 . Durante 4 semanas, com 13 anos, andou escondido em montes e pântanos ate encontrar os rebeldes. Mais tarde, um dos assassinos aceitou mostrar-lhe onde estavam enterradas a mãe e uma irmã. "Mostrou-me onde elas estavam, e assim ajudou-me a ter paz". Muitos dos assassinos estão ainda na prisão. Muitos já estão em liberdade, no Rwanda.
O pais não esquece nem esconde. Todos os locais de massacre estão conservados. As crianças visitam-nos com a escola. Mas o pais decidiu avançar. Perdoar. Perdoar os assassinos dos próprios pais e irmãos.
No pais que eu vi, não existem Tutsis nem Hutos, só Rwandenses. Os campos estão todos cultivados e verdes., os autocarros saem a horas, a policia não pede dinheiro, as cidades sao seguras para andar 'a noite.
Passados 17 anos de um dos maiores massacres da historia da Humanidade, o Rwanda e' um dos países mais desenvolvidos de África. E sem mais uma gota de sangue.

terça-feira, 19 de julho de 2011

de Kigoma a Kigali

As horas em Africa sao diferentes. Nao e' nenhuma metafora. Nesta parte do mundo, existe o horario Swahili. As nossas 6 da manha sao as 0 horas, o meio-dia as 6, e as 6 as 12. E comeca outra vez do 0, das 6 da tarde ate' 'as 6 da manha. Parece-me mais logico. O dia comeca quando o sol nasce. Nunca comecei nenhum dia 'a meia noite! Deparei-me com isto quando, na embaixada do Burundi, me disseram que fechavam 'as 9 (eram 11 da manha). Pareceu-me bom demais. Perguntei outra vez. "Sim sim, fechamos 'as 9, quer dizer, 'as 15!"

O MV Liemba chegou a Kigoma de noite, por isso passamos a noite no barco, e de manha desembarcamos. A cidade e' tropical, palmeiras junto ao lago, calor, ambiente descontraido, sem pressas nem muita confusao. Junto com os alemaes, encontrei um hotelzinho simpatico. A etapa seguinte era ir de Kigoma (Tanzania), ate' Kigali (Rwanda). Pelo meio, um dos paises mais pobres e perigosos de Africa, o Burundi. As suecas decidiram que iam tentar contornar o Burundi pela Tanzania, eu e 2 alemaes decidimos atravessar o Burundi. Fomos ao consulado do burundi para o visto. Disseram que necessitavamos de fotos e que fechavam 'as 9. Fomos tirar as fotos, voltamos, e em 10 minutos saimos com o visto. Como ainda havia tempo, juntei-me ao casal alemao e fomos visitar Ujiji, local do famoso encontro do Dr.Livingstone com M.Stanley, em que o ultimo pronunciou a famosa frase: "Dr. Livingstone, I presume". Como resumo, o Dr. Livingstone foi um missionario transformado em explorador, que, no final do sec.19 percorreu o interior de Africa, ainda inexplorada. Percorreu os caminhos dos traficantes de escravos, para denunciar e acabar com a escravatura em Africa. Andou sozinho (sem companhia europeia), durante mais de 20 anos, sem descansar, ate morrer em Africa. Um homem movido por uma crenca religiosa de missao, de libertar todos os escravos do mundo. Uns anos antes, como nao recebiam noticias do explorador, enviaram o bom do Stanley para o encontrar. Depois de 3 meses na selva 'a procura de Livingstone, quando o viu, com a sua postura britanica, o mais euforico que conseguiu ser foi tirar o chapeu e "Dr. Livingstone, I presume".
Ujiji e' uma pequena aldeia perto do lago. Dai' iniciava o caminho que os escravos negros percorriam ate chegar a Zanzibar, na costa, a mais de 1.000 kms. O inicio do caminho ainda esta' bem marcado, pois os vendedores muculmanos plantaram, ao longo do caminho, arvores de mangas, que hoje em dia formam um tunel verde. E durante meia hora percorremos esse caminho sombrio.
De regresso a Kigoma jantamos um franguinho na brasa, no meio da rua, e despedimo-nos. O grupo do barco dividia-se no dia seguinte, cada um para o seu canto de Africa.
6 da manha, eu, o Pascal e o Thobias apanhamos o autocarro ate 'a fronteira. Subimos subimos a montanha, num clima tropical. As bananeiras comecaram a aparecer por todos os lados. Com a altitude, o tempo arrefeceu. O posto fronteirico da tanzania vazio, o oficial muito simpatico, carimbou o passaporte e indicou-nos o taxi. O posto fronteirico do Burundi ficava a 10 kms de distancia! Metemo-nos os 3 num Toyota Corolla, com as malas em cima de nos, e arrancamos montanha fora. Passados 100 mts, o asfalto mudou para terra batida, da vermelha. O condutor nao abrandou. Comeca a chover, piso molhado, e o homem a acelerar. Iamos com o Collin McRae do Burundi! Claramente o carro nao era dele, pois nao o poupava aos buracos. 20 minutos e chegamos ao posto do Burundi. Com o visto, entramos sem problemas. Arrancamos para mais 15 minutos de rali. O famoso rali das montnhas do Burundi.
Finalmente, chegamos a uma aldeia no meio da montanha, ainda com tudo em terra batida, muita gente nas ruas. Vamos 'a paragem dos autocarros e, a entrar num deles, estavam as nossas amigas suecas. Pelos vistos no dia anterior mudaram de ideias, e foram directas ao Burundi. Mas como ja era tarde passaram a noite na aldeia, no meio da montanha. Entramos no mini-bus (a tipica Hiace atafulhada de gente e galinhas) e, quando iamos a arrancar, vem um senhor com ar de importante a dizer que tinhamos que pagar o visto. Que nao, que pagamos em Kigoma. Que nao, que tem que pagar aqui. O mini-bus deu meia volta e fomos todos ate 'a estacao da policia! Muita confusao (poucos falam ingles naquela montanha), mas, com a ajuda de um passageiro, em 15 minutos esclarecemos a situacao. Pedimos desculpa aos restantes passageiros (que nunca resmungaram nem se queixaram), e arrancamos para Bujumbura. Atravessamos mais montanhas, muito verdes, muito tropicais. As casas todas simples, cabanas. Babaneiras por todo o lado. Muitos projectos de recuperacao financiados pela comunidade internacional. A estrada desceu outra vez para o lago Tanganika, e foi sempre a acompanhar a agua, num ambiente tropical, com agua azul clara, o ceu carregado, com ar de chuva tropical. Ameacou e choveu. Paramos algumas vezes porque nao se conseguia ver a estrada. A chuva abrandou e nos aceleramos ate Bujumbura. Chegamos ainda de manha. A cidade com ar de bairro mau. Toda ela. O amigo que nos ajudou com a policia ja tinha ajudado as suecas no dia anterior. Parecia de confianca. Aconselhou uma pensao perto de casa dele. Era mais barato que no centro. Normalmente nao aceitaria, mas eramos 5, e os meus companheiros de percurso muito poupadinhos. OK. Metemo-nos num taxi e cruzamos a cidade. Do outro lado, um bairro ainda pior. Entramos num musseque (favela, bairro de lata, etc), e numa rua melhorzinha, la estava o hotel. Limpo, ar seguro, respeitavel. 3 euros a noite. Impecavel!
Ainda era meio dia, fomos dar uma volta pela cidade com o nosso anfitreao. Mas primeiro fez questao de nos mostrar a casa dele (dos pais), no musseque. La fomos os 5 branquinhos, lama fora. Ninguem nos chateou, as criancas diziam adeus e e riam muito quando respondiamos. Lixo por todo o lado, cheiro a condizer. Muitas barracas. 2 anos em Angola, e tenho que vir ao Burundi para entrar num musseque!
Na visita 'a cidade nao encontramos nada de especial interesse ou original. Um mercado central grande, e pouco mais. De notar uns carregadores que transportavam sacos de farinha 'as costas durante 50 mts, a pesarem 120 kgs!

Dia seguinte, o nosso amigo Djutos levou-nos atraves da favela, mochilas 'as costas, ate 'a estacao de camionetas. Dai', transporte directo ate' Kigali.
Das margens do lago, subimos outra vez a montanha. Ainda mais verde! Subimos mais e mais. No topo, a fronteira com o Rwanda.
- Visto?
- E' preciso?!?! Disseram-me que nao!
- E' preciso! Devia ter ido 'a internet pedir o visto antes de vir!
- Nao sabia que tinha que pedir na internet...
- E muito facil!!!! E agora, se nao o deixar entrar?...
- ....
- OK, vou dar-lhe o visto. Mas para a proxima nao se esqueca!!!

30 dolares. Nao me cobrou nem mais um centimo do que o indicado na tabela. Em 15 minutos estava despachado. Isto e' o Rwanda. 'A entrada, um cartaz do governo:"Investimento sim! Corrupcao nao!
A paisagem transformou-se. As cabanas transformaram-se em casas como deve ser (pareciam as casas dos nossos emigrantes). A estrada bem asfaltada e pintada. Os campos, todos divididos em pequenas parcelas, todos cultivados! Milho, bananas, eucaliptos. Fabricas pequenas e medias, espalhadas pela paisagem. Meus amigos, o Rwanda parece o Minho!!!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MV Liemba

Viajar no MV Liemba e' entrar dentro de Africa. E' ver e sentir como funciona o continente. E' ser espectador do dia a dia das populacoes isoladas de aldeias no lago Tanganika. E entretanto, percorrer 500 kms em 3 dias.
Construido pelos alemaes ha quase 100 anos (1913), para o transporte de tropas no lago. Fabricado na Alemanha, desmontado, e montado outra vez no seu lago. Afundado pelos seus criadores, e recuperado pelos Ingleses.
Agora, percorre o lago de quinze em quinze dias, iniciando a percurso em Kigoma, Tanzania, indo ate' Mpulungo, Zambia, e regressando a Kigoma. Durante o percurso faz umas 15 paragens. Entre viagens, aproveita para levar refugiados de volta ao Congo.
Transporta passageiros (1a, 2a e 3a classe), mas principalmente transporta mercadorias. As estradas 'a volta do lago sao ma's ou inexistentes, e o barco e' a melhor (talvez unica) forma de as varias aldeias fazerem chegar os seus produtos excedentes aos mercados. A maioria peixe, peixe seco, que e' a forma mais comum usada em Africa para conservar o peixe. Ha 4 formas de conservar o peixe: congelar, salgar, fumar, secar. Sem electricidade nao ha congelamento, sem sal nao se salga. Fumam o peixe, mas essencialmente secam o peixe (coisas que se aprendem num barco).
Transporta tambem arroz e outros cereais. E o barco transporta tambem cimento, pois ha uma fabrica do mesmo numa das paragens intermedias. Para Kigoma vao sacos de cimento, para Mpulungo, sacos de clinquer.
O Lewis e' de Mpulungo. Faz a vida a comprar e vender peixe. Tem uma t-shirt da seleccao espanhola e uma fotografia do Cristiano Ronaldo no telemovel. O clube favorito e' o Real Madrid. Apanhou o barco em Mpulungo com um amigo do Barcelona, e vao comprar peixe a Bilenge. Daqui a 15 dias apanham o barco, quando estiver a descer outra vez para Mpulungo. Levam 1.500.000 shillings no bolso (1.000$) que deve dar para comprar 4 ou 5 sacos de peixe. Peixe pequeno, miudinho, mais pequeno que o meu mindinho. A unidade e' o balde. Um saco leva 9 baldes.
O Lewis e o amigo esperam vender a mercadoria por 5.000.000 de kwachas. Tem que pagar o transporte e taxas alfandegarias. Pelas contas deles, poe e tira, multiplica e subtrai, fica com um lucro de 4%. 40 $ para 15 dias de trabalho?! Parece-me queixume de negociante. So' deve ter 20 anos, mas muita experiencia no negocio.
E' de pequenos comerciantes como o Lewis, que as aldeias dependem para vender os seus produtos e receber outros. E a estrada deles e' o MV Liemba.
Quando atracou em Mpulungo trazia o porao cheio, mas saiu totalmente vazio. Carregou cimento na primeira paragem, e depois comecou a encher de cestos de peixe seco e sacos de arroz. Primeiro encheu o porao, depois comecou a encher o conves.
A 3a classe esta' ao nivel do conves. As pessoas espalham-se 'a volta dos cestos. Os cestos vao-se amontoando e subindo, as pessoas com eles. Ha muitos homens, ha muitas mulheres. Quase todas com um bebe' 'as costas. O bebe' esta' quase sempre a mamar. Os bebes nunca choram, no barco.
Elas vestem sempre roupas tradicionais, grandes vestidos a cobrir o corpo todo, isto e' uma sociedade conservadora. Eles, calcas ou calcoes, e t-shirts. Se possivel de futebol. O barco esta carregado de estrelas: Beckam, Owen, Xavi, Ibrahimovic, Ronaldinho Gaucho. Os clubes sempre os mesmos: os 4 de Inglaterra, os 2 de Espanha, e o AC Milan. Sao os produtos da televisao. O Lewis pagou 5 euros pela seleccao de Espanha.
Excepto o inicio e o final (e a fabrica de cimento), todas as outras paragens sao em pequenas aldeias. Nao tem porto. Por isso, quando o L:iemba se aproxima, faz soar a sua forte sirene grave, que da' inicio a uma corrida de barcos da aldeia ate ao Liemba, que atraca ao largo. De madeira, alguns a remos, outros a motor, vem o mais mais rapido possivel, qual corrida olimpica. Alguns trazem a mercadoria do costume, outros so' passageiros. Quando estao a chegar perto, os pequenos barcos, quais piratas ao ataque, lancam as cordas para o conves do grande barco metalico. 2 ou 3 rapazes saltam e trepam o navio para amarrar as cordas onde melhor for possivel. Todos ajudam, ate' o cozinheiro. Para os pequenos barcos de passageiros, e' uma corrida frenetica, pois os primeiros a chegar carregam mais passageiros.  Os ultimos levam restos. Os barcos atropelam-se uns aos outros, ha muitos gritos de barco para barco. Pessoas a saltar entre barcos, a entrar e a sair. Bebes a passarem de mao em mao. Bicicletas para cima e para baixo. Um conjunto completo de mobilia de quarto vai ate' Kigoma. Os grandes sacos sao carregados com o auxilio de uma pequena grua do Liemba.
No fim de todas as trocas, entradas e saidas, os pequenos barcos viram costas e voltam, agora num lago tranquilo, para a aldeia junto ao lago de onde arrancaram. O Lewis saiu nesta paragem. E juro que vi o Xavi e o Albidal a levar 4 senhoras no seu barco a remos.
E no meio deste mundo, quais actores no filme errado, vao os alemaes, as suecas, os dinamarqueses, e o portugues.
Um fisico desempregado, um carpinteiro entre trabalhos, o casal de professores em busca do rasto de Livingstone, os estudantes que tiraram um ano antes da faculdade para fazer voluntariado, e o portugues, a caminho de casa.